LOBA

Desejo a calidez alva de tuas mãos pequenas, lépidas; tua boca tépida.
Enrolado na mortalha de minha rede me embalo no teu hálito, teu sorriso.

Busco alcançar-te a boca e que obtenho?
Quanto mais tento me aproximar
mais a vejo se afastar.

Me rejeita com afagos.
Me mata com terna suavidade.

Nunca vivi morte mais doce
pôr ela anseio todos os minutos de cada hora
todas as horas de cada dia.
Esta morte constantemente vivida
de dor e prazer constituída.

E, quando descontente penso partir
tu, qual deusa condescendente
com um gesto apenas
traz-me de volta para ti.

Mantêm-me ajoelhado em teu altar
quando penso me irás beijar
sopra-me o rosto e ri contente.

Ri de pura felicidade
pôr não conhecer maldade.

Zomba de minha mortalha
a qual por prevenção
levo sempre comigo
pronto para morrer
a rigor, em qualquer ocasião.

Mas, a vou seguindo
como o pássaro segue a borboleta
admirado da sua beleza, da sua leveza
ansiando porém destroçá-la em meu bico.

Espero sentado em volta de tua mesa
abocanhando no ar
antes mesmo de o chão tocar
qualquer gesto seu.










Empacoto tudo que guardo de ti e os levo a meu quarto de estudos.
Debruçado sobre o que é seu, imaginando-me sábio estudioso a decifrar teus enigmas.

Pôr não compreender tua simplicidade
me perco neste labirinto inextricável de possibilidades remotas.

Se te encontro é numa sala de espelhos mágicos, onde
quando penso tê-la em meus braços, a vejo distante.

Alimenta-te de luz, de ar, e dos meus desejos de ti
são teu pão, tornam-na gorda; luminosa
e na tua gula insaciável a tudo devora
fazendo-se maior a cada dia
Poderosamente inalcançável.

Enquanto isso, eu carniça
sonho ser amado pelo chacal que me devora.

Resta-me desfrutar teus dentes, brancos grandes e belos
a morder-me as últimas carnes
comprazer-me no prazer efêmero da tua língua a lamber-me os ossos
tua baba, teu hálito cheirando ao sangue meu.

Logo, me restarão somente moscas varejeiras
a zunir na eternidade cálida da tua lembrança.







José Vilseki/010

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

condenado

Cuentos de España