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condenado

Encontrava-me sentado, placidamente, à borda do alpendre em frente a uma casa simples, muito comum na região onde vivo. O piso de cimento alisado e encerado, refletia de modo baço, minha figura de condenado. Balançava as pernas, batendo com os calcanhares à parede da área, onde esta terminava em abrupto degrau com mais de um metro de altura. “Meu pai deve estar próximo, ou, quem sabe, meu anjo da guarda”- pensei comigo, pois sentia uma paz e serenidade incondisentes com o momento. Esta sensação penetrava-me pelas costas e ombros, exatamente do mesmo modo como sentia penetrar-me, comumente, as impressões ruins dos ambientes pesados, como os de certos lugares onde trabalhei. Não sentia culpa ou remorso e tampouco sabia a razão – ou sabia e não lembrava – por que havia sido condenado. Pensava nisso quando senti – creio haver percebido seu reflexo no cimento – o algoz aproximar-se. - Está na hora! - disse ele. E, a estas palavras senti deixarem-m...
peça teatral O BILHETE PREMIADO ou UM DIA DE SORTE Personagens A- arlequim 1 –Eulália 2 –Chico M1- Karla G – Gangster- P – Pai policial D – Santa Efigênia ARLEQUIM – um dia de sorte pode ser apenas um dia comum, igual a qualquer outro. Talvez você tenha tido sorte sem nunca saber que a teve, talvez tenha tido sorte pelo simples fato de não ter tido azar, ou, talvez a sorte esteja justamente em não ter tido sorte. Sorte, segundo o padrão vigente do senso comum pode, muitas vezes, significar muito azar, o que, no final das contas pode ser uma sorte danada. ( Chico e Eulália sentados à beira do palco) 1 – Lembra daquela vez que choveu ? 2 – Lembro . Choveu tanto que os peixes morreram afogados . 2 – (Chora) 1 – (Brusco ) – Que foi ? 2 – Os peixes . 1 – Ora ! Peixes nascem e morrem todos os dias . É igual gente não vale a pena chorar por eles . 2 – Puxa ! Ainda bem . 2 – Que dia é hoje ? 1 – 12...
DOURADO Entrou pela porta e se aproximou da mesa onde eu garatujava alguns desenhos às bordas do meu caderno de lições. Era pleno verão e, na cidadezinha portuária onde vivíamos agora, fazia um calor de fornalha. Mesmo assim, apesar do calor, trajava impecável terno de linho branco e chapéu de palhinha. Parecia mais um estereótipo, um personagem desenhado por um artista estrangeiro, com seu sapato também branco e um cravo vermelho à lapela. - Boa tarde menina linda! – disse com voz profunda e melodiosa e me sorriu deixando ver seus belos dentes, um deles de ouro. Este sorriso me causou estranha impressão a qual até hoje não consigo definir. Uma espécie de atração repulsão me levava a desejar constantemente aquele sorriso, mas, no instante em que o via, fazia-me sentir uma espécie de repulsa ou medo, ou, nem uma dessas coisas. Era um sentimento novo, ainda sem definição. Algo assim como fazer-me duvidar de minhas convicções e, se me enredasse em tentar descobrir explicação encontr...
MUNDO BLUE Vamos procurar lá, naquela estrela azul, um planetinha onde faremos nosso mundo particular. Onde nada nem ninguém nos venha incomodar dizendo: as coisas são assim, não assado. Dormiremos na chuva. Plantaremos grama sobre a cama e flores nas chaleiras. E nossos filhos... sim que os teremos, muitos, serão de todas as cores. As meninas: rosadinhas, grenás, pastel, salmão; mas todas terão olhos azuis. E seus irmãos: azuis. Totalmente azuis alguns; outros: verdes, vermelhos e róseos os mais temperamentais. Ah! Terão azas, e farão o trabalho das borboletas e das abelhas indo de flor em flor a perguntar seus nomes, desejando-lhes: “Bom Dia!”. A tarde virão aconchegar-se em teu colo, dormindo, satisfeitos e felizes, em um mundo que será sempre aquilo que eles queiram que seja. Ficaremos namorando pela noite afora, os rostos colados, baixo enorme lua prateada de azul, lembrando um pequeno planeta, também azul, distante, para onde poderemos retornar sempre que quisermos, aonde cheg...
CARTAS DE SEVILHA Resgatei umas cartas antigas aos dentes dos ratos. Que legal ter uma história! Dezembro de 1987, Sevilha, escrevo à minha jovem esposa, Suza, uma carta transbordante de amor, saudade e ciúmes. Romantismo sincero, verdadeiro, como só podem ter os jovens ainda não corrompidos pela cimentadora realidade cotidiana.
                    OLHOS FECHADOS Deito cansado por ter ido até São Luiz do Purunã, passando pela        Faxina.     Não que eu tenha ido a pé, não! fui em minha caminhoneta impulsionado por um possante motor V6. Mesmo assim estou cansado. E me dou a esse direito de assim estar e de não ir à aula de dança a que me havia proposto. Pego o livro do Mário de Andrade, mas os olhos começam arder embrasados pelo muito sol que houve nesta tarde radiante de julho, e, quando as letras dessa tíbia literatura começam a queimar apago um abajur (tenho dois), fecho os olhos (também tenho dois), mas volto a abri-los, subitamente, ao lembrar que esquecera um compromisso com um grupo de teatro. Bem! Que fazer? Melhor voltar aos olhos fechados, o que me obriga a parar de escrever            ...
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JULIANO E LAIZ  EM ANTÍGONA