ensaio sobre machado de assis

ENSAIO SOBRE MACHADO DE ASSIS

- Estou farto do Machado de Assis! Exclamei fechando o livro, nesta semana em que estive gripado, lendo, nos intervalos da febre, as peripécias e dissabores do pobre rico Rubião, e fiquei me questionando: “ por que tão grande escritor, talvez o melhor dos brasileiros, teria desperdiçado tão precioso talento, tinta e papel, para descrever minuciosamente, como se fizesse um tratado filosófico, personagens tão medíocres?”
No romance Quincas Borba, a descrição pormenorizada do sucesso do casamento do personagem José Maria me exasperou ao extremo, chega a ser um endeusamento à fatuidade.
Um gênio incontestável esse Machado, mas de uma genialidade fragmentada que espoca como flashes ou relâmpagos dentro de uma narrativa por vezes fastidiosa. Expõe-nos a alma humana de forma atemporal. Serviu tanto para sua época como continuará sendo a mesma pelos séculos afora. Pena que, apesar disso, tenha se dedicado tanto a uma arte fácil, digerível; bem ao gosto do povo e dos pseudoletrados. “A opinião pública é a única coisa que vale” - diz um de seus personagens.
Escrevia como quem joga futebol. Lépido mulato bom de bola, ginga prá um lado e pro outro, rápido, meio dissimulado, como bom malandro carioca. Não sei como conseguiu imortalizar-se com esta imagem austera e sorumbática de um Dom Casmurro.
Não tomava partido. Sempre em cima do muro, era Monarquista sem deixar de ser republicano, era abolicionista, mas tinha um escravo.
Gostava de habitar em meio à alta burguesia, frequentar a corte, e perdia seu tempo em descrever bailes e vestidos, com genial maestria, fornecendo-nos assim infinitos retratos de uma época e seu povo.
Intrigazinhas, as mínimas articulações políticas ou domésticas, meias medidas, atitudes dúbias, interesses mesquinhos são o material de que se alimenta, movimentando-se da cozinha ao gabinete do ministro com magistral facilidade.
A única coisa que não conseguiu Machado em sua vasta obra foi compor um grande personagem e existem evidências de que não o fez por não querer fazê-lo, por medo talvez.
Medo de que? Podemos perguntar.
Medo do criador, de ser devorado pela criatura?
Medo que tem o quase louco de ser enlouquecido pela obsessão de seu personagem ou, medo de ser esquecido, suplantado por ele?
Quem conhece Sir Conan Doyle? Quem não conhece Sherlok Holmes?
Quem é maior, Dom Quixote ou Cervantes? Quem é mais famoso Nietzsche ou Zaratustra? Quem criou Frankstein?
Matava, portanto, seus personagens no berço, ou, quando os batizava, dando-lhes nomes nada promissores. O alienista é um natimorto com o nome Simão Bacamarte.
Bentinho não é apenas um diminutivo, diminui o personagem, e a alcunha Dom Casmurro dá-lhe o golpe final. Mas as criaturas fogem ao criador assim como as galinhas fogem do galinheiro e Capitu - batizada com o nome assassino de Capitulina -, escapou e se notabilizou, em parte por seu apelido, em parte pelos olhos oblíquos e dissimulados, alcançando notoriedade quase equivalente à Madame Bovari.
Mas o maior crime que podemos atribuir ao Machado é, sem dúvida, com respeito ao Quincas Borba.
Este personagem se imiscuiu em meio ao romance “Memórias póstumas de Brás Cubas”, ao que parece, quase sem que o autor disso se apercebesse.
Tratou-o com carinho, a princípio, e permitiu que adquirisse certo brilho, mas - cria corvos e estes lhe comerão os olhos -, o danado logo tomou conta do romance com sua belíssima e promissora filosofia Humanitista sintetizada na frase “Ao vencedor as batatas” (ouvi esta, outro dia, num seriado americano).
A grandiosidade e o desapego do personagem, que ficou rico e deixou sua fortuna ao idiota do Rubião, prometia tanto que o autor precisou enxotá-lo do presente romance. Mas o danado foi parar no livro seguinte o qual levava seu nome.
Que surpresa do leitor traído ao descobrir que o personagem que dá título à obra não é o querido e esperado filósofo e sim seu cão batizado como seu homônimo.
Neste romance traidor Machado exibe seu gênio, logo no início, quando nos apresenta seu personagem protagonista Rubião. Faz-nos vê-lo como através de uma câmera de realit show, e seus gestos, postura e trejeitos nos dizem tudo sobre a natureza deste ser tão medíocre.
Nesta obra o autor trata logo de ensandecer o Quincas Borba e depois o mata, cruelmente, exorcizando-o para sempre de sua mente sensível.

Vencestes Machado. Derrotastes todos teus personagens. Passaram todos à eternidade subjugados a tua sombra. Nem um se tornou maior que você mesmo.
E você que nasceu apenas um mulatinho de morro, franzino e epilético, se tornou uma ensígnia nacional. Seria hoje condecorado com o “Cruzeiro do Sul” que, aliás, foi idéia sua. Só não conseguiste – oh! Mundo imperfeito – a cadeira de ministro sua maior ambição; mas – o mundo sempre nos reserva uma compensação – foste enterrado como tal. Passastes à eternidade como espírito lúcido e não como um quase louco, que era o que tanto temia. Vencestes Machado! Fica com as batatas todas e as glórias de uma obra maravilhosa embora despovoada de grandes personagens. Lamento apenas não tenhas deixado florescer um Zaratustra nacional.





José Vilseki

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