SANSÃO E GOLIAS


GOLIAS - Que mais podemos dizer ou escrever que Nietszch já não tenha dito melhor. Poderia, talvez, acrescentar algo sobre as mulheres mas, valerão elas meu tempo ou a tinta da minha caneta? Penso hoje, do alto da minha maturidade e sabedoria de velho, que deveria tê-las despido todas, exposto seus corpos, seu bem maior, já que alma, ali dentro, se existe, é muito pouca. Se consentissem desfrutaria delas, esse pobre tesouro e, se não, que fossem pronto, sem que me furtassem tão preciosa moeda, a mais preciosa de todas, já que a este tesouro nada podemos acrescentar: meu tempo.
SANSÃO - Eu, mais que as mulheres e a natureza, que é o que mais amo, mais que isso, amo o jovem que fui um dia, este ser tão frágil e desprotegido, levado prá lá e prá cá tanto pelos ventos e tempestades, como pela mais leve aragem. Com ímpeto compulsivo buscava, com todas suas poucas forças, o que há de belo e melhor na criação. Buscava ver beleza em tudo e como lhe eram penosos e feios: o grotesco e a brutalidade imposta por seus tiranos.
Amo este jovem como a um filho. Como gostaria poder agora, em minha velhice, protegê-lo. Bem pouco tenho a lhe oferecer. Pouco poder adquiri. Bens não acumulei. Mas, poderia oferecer-lhe minha compreensão, o que seria muito para quem teve tão pouco.
G - Pois a mim este teu filho me parece um parvo. Buscar beleza na terra e nas mulheres é como buscar água no Saara. Há tão pouco que não vale a jornada.
S - Pois só o que vale é a jornada, as estrelas, as estradas e os perigos.
G - Belos conselhos daria a teu jovem filho um velho estouvado como tu.
S - Diria a ele que as mulheres são seres belos e delicados e que devemos amá-las e protegê-las.
G - Há! Há! Tudo que ele mais precisava era alguém que o protegesse delas. Estes seres delicados dilaceraram-no. Devia apenas ensiná-lo a rir das mulheres quando viessem lhe oferecer tão cara mercadoria.
S - Pobre coitado de alma grande, tudo que buscava era uma companheira da sua estatura e, quando pensou haver encontrado grandeza era só pompa e majestade, uma farsa burlesca como a dos reis e dos padres.
G - O maior disparate que um homem pode cometer é buscar uma grande mulher. Deve antes buscar uma bem pequena, consciente da sua estatura e que lhe aceite a grandeza com naturalidade e submissão. Se a mulher sabe-se um pouco grande estará sempre disputando estatura com o homem e se não puder ser maior que ele, coisa que muito raramente consegue, lhe subirá aos ombros, lhe colocará freio e arreio e o conduzirá pelas ruas, praças e salões, ostentando seu domínio e a grandeza adquirida às custas da pobre besta.
Ao homem cumpre fugir e desfrutar as pradarias e os pastos amplos, sem ambicionar mais que o céu e as estrelas sobre sua cabeça. Fugir principalmente desta prisão, esta gaiola minúscula chamada: lar. Mas deve precaver-se da solidão e para isso é necessário adquirir poder.
S - Que é o mundo senão uma prisão apenas aparentemente mais ampla. Melhor estar numa gaiola e desfrutar o aconchego de uma companheira, o calor de suas penas, seu trinado e o doce gorjeio dos filhotes no ninho.
G - Isso tudo pode ser bom para quem tem poder.
S - Não acredita então no poder do amor?
G - O poder gera amor.
S - O poder gera apenas subserviência, ódio camuflado de amor.
G - Que é o que de mais sincero existe. Se não tiver um par de olhos bonitos, corpo atlético e um membro satisfatório, tua esposa irá em busca de um jovem com tais atributos. Se não puder oferecer uma vida principesca a teus filhos pronto deixarão teu lar para viver com uma raparigazinha ou um garoto inculto e imberbe. Tens que ser rei, mesmo que seja um rei ridículo, para que não o abandonem. Quantas vezes não ouviu nesta tua pobre vida: te amamos tanto Sansão mas temos que ir em busca do nosso destino. Pois comigo ninguém vai, e se vão, pronto retornam, mais submissos ainda, com o rabinho entre as pernas, e nessa hora temos que estar prontos para dar mais do que já demos antes, isso faz com que nos amem com grande sinceridade e não pode haver amor mais verdadeiro do que o do filho pródigo que retorna ao lar. Te garanto: se não tiver poder poderá apenas contar com o amor dos fracos, mais fracos ainda que tu, e os sem imaginação nem ambição.
S - Penso haver algo de verdadeiro no que dizes Golias, mas esta é a minha natureza e nada posso contra ela. Meu consolo é que: se por fim não me restar nada além de ‘eu mesmo’ tampouco terei do que me envergonhar desta companhia.
G - Pois não há vergonha maior do que a solidão. As gentes desconfiam dos solitários, mesmos os animais solitários são vistos com maus olhos. Quantas vezes já ouviu a sentença: morreu pobre e abandonado. O povo sabe, e são a voz de Deus, que não existe pior castigo. Veja os políticos, têm que ter esposa família e muitos amigos, senão ninguém vota neles.
S - Não pretendo concorrer a nenhuma eleição e penso que o pobre e abandonado é que está mais próximo de encontrar à Deus.
G - Claro! E o que mais poderia encontrar? Deus, meu amigo, não passa de uma invenção dos poderosos com objetivo de fazer o fraco acomodar-se a sua derrota aceitando-a como vitória. Tudo ilusão, ilusão e enganação. A lei do mais forte ainda prevalece e hoje o mais forte é o que menos crê.
S - Pouco importa crermos ou não em Deus. É tudo questão de fé. É necessária tanto fé para crer na sua existência quanto na sua inexistência. O que vale é crer no indivíduo. Penso que o ser, a medida que evolui, alcança, finalmente, a individualização, e que o senso do coletivo é próprio dos seres ainda numa fase primitiva de evolução. Quando o indivíduo se reconhece como tal, reluta ainda buscando resgatar o senso de coletivo ou a pureza primitiva, mas estas são irrecuperáveis, assim como a inocência, uma vez perdida, perdida está. O próximo passo é não mais buscar mas sim reconhecer-se como Deus.
G - Que bela figura de Deus faz um velho pobre e solitário, pois não me parece nada grandioso este Deus e, graças a Deus não preciso acreditar nele.
S - Nunca pareceram grandiosos os grandes mestres, Jesus, Lao Tsé, Gandi, foram figuras humildes. Mesmo o grande Khrishna assumiu a forma de um pastorzinho.
G - Pois vejo muita vantagem em termos esses deuses.
Se tudo que dizem é: paz, desapego, humildade, conformismo, subserviência, e, assim mesmo, veja em que mundo vivemos: guerras, conflitos, ódio, ambição.
Não fossem tais messias pacifistas já teríamos destruído este planeta.
S - Então você acredita.
G - Acredito na sabedoria das coisas práticas, e, por falar nisso, tenho que ir, os negócios me chamam. Telóguinho amigo, fique com Deus, com todos eles, e lembre-se: solidão é mau negócio.

José Vilseki 2008

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