AGÊNCIA INTERESTELAR

- Então, 65 anos e finalmente resolve se aposentar... que tal Marrocos? Com 800 dólares a mais posso te conseguir uma esticadinha à Grécia, com hotel, café da manhã e traslado ao Partenon e um monte de outras velharias – disse o amigo, vendedor de passagens, não, vendedor de passagens não, dono de uma “Companhia de Turismo”.
Prosperara muito nesse negócio e agora a cara lustrosa e o ventre proeminente ostentavam sua bem sucedida carreira. - fará você se sentir um jovenzinho - arrematou.
- O quê?
- Aquela velharia toda. Fará você se sentir um jovenzinho. E, se não se sentir jovem, verá o valor das coisas velhas. Te garanto, meu amigo, depois dessa viajem, vai mudar teus conceitos sobre você mesmo, as pessoas e o mundo. Veja eu, depois que entrei nesse negócio de viagens, comecei, como era natural, a viajar, e isso me mudou completamente; passei a ver o quanto somos insignificantes, o quanto é medíocre essa nossa cidadezinha, quanto os problemas insolúveis que nos afligem são risíveis.
Adquiri cultura, ampliei meus horizontes, passei a não ter medo das coisas, me tornei um filósofo, um cidadão do mundo, um perfeito cosmopolita.
- um filósofo rico.
- Dinheiro foi conseqüência.
- Conseqüência da tua luta por consegui-lo. Acho que as viagens foram conseqüência.
- Talvez! Talvez! Ma, te garanto, hoje o dinheiro não tem a menor importância, o que me valeu nesta vida foram as viagens.
- Aquilo me atrai.
- O que?
- Aquele cartaz “Todo bajo el sol”.
- Ah! Espanha! Ótima idéia. Já viu uma tourada? Vi muitas, é a coisa mais fantástica do mundo. Em vez de ruínas nos mostram uma coisa viva, uma coisa que vem dos primórdios dos tempos e ainda viva. Que arte, que elegância tem o matador; com a leveza e a graça de um bailarino executa seu trabalho de açougueiro.
- Esqueça Espanha. Você acaba de colocar uma nuvem negra debaixo do meu sol.
- O teu problema é esse: excesso de sensibilidade. Essa tua mania de deixar as dores do mundo te atingir. Olha, vou te ensinar uma coisa, é o segredo do bom viajante, assistir a tudo, experimentar tudo, mas, como observador impassível, jamais se envolver.
- Vou voltar pra casa, pensar um pouco melhor.
- Voltar pra casa!? Aquela casa vazia, pra que? Me diga, o que é que vai fazer um velho sozinho numa casa vazia? Ficar de pijama o dia inteiro, com o controle remoto na mão, olhando entediado a porcaria da televisão? O mundo, amigo, o mundo é a nossa casa, seria o universo se já tivéssemos naves espaciais. Sabe? As vezes fico tendo essas fantasias: eu, um vendedor de viagens espaciais... Alô! Pois não minha senhora. Marte!? Não! Se me permite sugiro a estrela de Orion. Tem um planetinha deserto que é a sensação do momento. Que tal hem?
- Esse planetinha me atrai. Acho que vou voltar mais tarde, quando você tiver essa agência espacial – e, se dirigindo à saída em seu passo de velho. – Um planetinha virgem - parecia usar pijama e chinelas, apesar de vestir seu melhor paletó – sem ruínas, sem touradas. Isso me atrai amigo, como me atrai.

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