DOURADO
Entrou pela porta e se aproximou da mesa onde eu garatujava alguns desenhos às bordas do meu caderno de lições. Era pleno verão e, na cidadezinha portuária onde vivíamos agora, fazia um calor de fornalha. Mesmo assim, apesar do calor, trajava impecável terno de linho branco e chapéu de palhinha. Parecia mais um estereótipo, um personagem desenhado por um artista estrangeiro, com seu sapato também branco e um cravo vermelho à lapela. - Boa tarde menina linda! – disse com voz profunda e melodiosa e me sorriu deixando ver seus belos dentes, um deles de ouro. Este sorriso me causou estranha impressão a qual até hoje não consigo definir. Uma espécie de atração repulsão me levava a desejar constantemente aquele sorriso, mas, no instante em que o via, fazia-me sentir uma espécie de repulsa ou medo, ou, nem uma dessas coisas. Era um sentimento novo, ainda sem definição. Algo assim como fazer-me duvidar de minhas convicções e, se me enredasse em tentar descobrir explicação encontrava apenas mais dúvidas. Penso até, que se persistisse nisso terminaria por duvidar até da existência de Deus. A partir de então, as coisas que me pareceram ordenadas, num mundo tão naturalmente correto, passaram, a partir deste momento, a desmoronar como uma fileira de dominós cuja estabilidade constatamos - após empurrarmos a primeira peça - ser apenas aparente. Tínhamos uma pequena pensão e minha mãe, nestas tardes quentes, deixava-me cuidando da portaria enquanto tirava sua “sesta”, geralmente acompanhada de algum seu namorado. - Vocês têm um quarto? – perguntou simplesmente e não estranhei a redundância da frase, antes, admirei-lhe a objetividade. - Temos! - Ótimo! Fico com ele. - Você não quer ver primeiro? - Não precisa. - É quatro pesetas a diária e vinte a semana, conforme preferir. O pagamento é adiantado. - Toma! – me diz, colocando sobre a mesa uma nota de cem. – Pago cinco semanas. - Está bem! Preciso preencher sua ficha. - Poderia deixar isso pra depois? – me diz sorrindo. - É que estou muito cansado. Depois de um banho e de comer alguma coisa preencherei com prazer uma dúzia dessas fichas. - Claro! Me acompanhe! Vou mostrar teu quarto. Mas, deixe-me fazer o recibo. - Depois! Não há pressa. Levei-o até seu quarto e me pareceu estivesse satisfeito. Despediu-me com um: - Obrigado minha querida – e fechou a porta atrás de mim. Voltei às minhas lições e meus desenhos completamente esquecida do hóspede, até mamãe se aproximar, com olhos sonolentos, perguntando: - Tudo bem? - Tudo! - Alguma novidade? - Não...ah! sim! Tem um hóspede novo no número três. - E? cadê a ficha? - Ele disse que estava muito cansado e pediu pra... - Tá bem...e pagou? - Pagou! Cinco semanas. Está aqui o dinheiro. Os olhos de mamãe brilharam ao contemplar a nota novinha, e o cliente que até então era apenas mais um dos tantos itinerantes que porali passavam, adquiriu, de repente, sem que ela lhe soubesse o nome, ou qualquer das suas características, pela simples visão de uma nota de dinheiro, um “status” novo. Na verdade, aquela nota dizia muito por si só. E minha mãe habituada como estava, pelas adversidades da vida, a raciocinar rápido, tirou, a partir desta simples visão, várias deduções. Primeira: pagou cinco semanas sem regatear no preço, pois se o fizesse teria obtido desconto. Era, portanto, um perdulário. Segundo: pretendia ficar, provavelmente, mais que cinco semanas, ou pagaria uma semana de cada vez. Terceiro: tinha um faro para saber que se encontrava num bom estabelecimento, ou viera muito bem recomendado, de outro modo não pagaria a uma garotinha sem lhe pedir que chamasse sua mãe. A possibilidade de que fosse uma espécie de bandido, um gangster, ou um pirata que gastava o dinheiro fácil por ilícito que era, nem passou pela cabeça de minha mãe, pois ela havia desenvolvido uma espécie de sexto sentido e teria percebido na atmosfera, ou na nota de cem, caso houvesse alguma maldade muito grande com o novo hóspede. De modo que concordou com um: - Ta bem! - e completou – Já terminou a lição? - Já! - Então estude mais um pouquinho enquanto vou buscar alguma coisa pro jantar. Saiu pela porta cantarolando a última canção da moda, rebolando de maneira sutil, seu belo corpo maduro. Era uma mulher de bem com a vida. Após lutar com unhas e dentes com as hostilidades do mundo, acabou por fazer as pazes com ele, decidindo haver muito pouca coisa com que valesse a pena se preocupar de verdade. Mas, quando algo a contrariava, o que era muito difícil acontecer, então soltava suas represas e a guerreira adormecida despertava pronta para a refrega. Festejava suas vitórias com verdadeiro prazer, saboreando cada triunfo. Contava-me inúmeras vezes a mesma história, as respostas que dera, a cara que fez, as atitudes que tomara. E me narrava em detalhes cada lance daquilo que considerava como uma partida de xadrez. Quando perdia, e isso também não era raro, tomava ares filosóficos e arrematava com um: - Que isso nos sirva de lição! E servia mesmo. Não costumava reincidir nos mesmos erros. Há tempos deixara de lado as coisas do coração e agora só pensava com a cabeça. Até mesmos seus namorados eram avaliados, pesados, medidos, e, somente após constatar que este lhe seria ótima companhia, tanto na cama quanto à mesa, e que não lhe resultaria em despesa (não era necessário que desse lucro), somente então lhe franqueava as portas e o amava com apaixonada sensatez, até dele se fartar, quando o despedia de modo terno, porém inquestionável. Todos se faziam seus amigos, e por vezes, nesta condição, frequentavam nossa casa. O acidente, portanto, nada teve de passional ou premeditado. Foi uma fatalidade, um acaso do destino. E, se ela não o previu, é por que estava programado, nos insondáveis desígnios do destino, que assim haveria de ser. Foi assassinada por um desconhecido o qual nunca mais foi visto ou encontrado. A nota de cem desaparecera, daí o caso ter sido considerado como latrocínio. No entanto, Dona Matilde, proprietária da mercearia para onde se dirigia minha mãe, e única testemunha do acidente, diz que o homem a abordou com delicadeza. Pareceu-lhe, a primeira vista, que fossem conhecidos, por isso não lhes prestou muita atenção. Quando voltou a olhá-los se deu conta não conhecer o indivíduo. Neste momento percebeu certa rispidez no rosto de minha mãe e pensou consigo: “este sujeito não sabe com quem está lidando”. Virou para atender um cliente e quando se voltou o homem já não estava lá e minha mãe jazia numa poça de sangue. Quando lhe pediram que fizesse uma descrição do assassino conseguiu lembrar apenas do sorriso irônico e de um brilho daquilo que lhe pareceu ser um dente de ouro. Este detalhe fez com que a policia investigasse a fundo nosso novo hóspede. Trouxeram a tona toda sua biografia e, se isso a principio o admoestou sobremaneira, mais tarde, ao que parece, causou-lhe até um certo bem estar. Serviu como uma espécie de catarse para ele expor-se assim, de alma nua, em público. Para mim que passei a receá-lo, tão logo soube da suspeita que lhe pesava, a história de sua vida se me desfolhou como uma novela romanesca. Comoveu-me às lágrimas e fez-me esquecer até mesmo minhas dores. Embora tivesse apenas quarenta e cinco anos - disse-me um dia – julgava-se um velho de oitenta, de tão desiludido e sem expectativas se encontrava em relação à vida. Sua mulher fugira com seu sócio e melhor amigo. A filha, após inúmeras internações em clinicas psiquiátricas, terminou por se suicidar com uma over-dose. O filho mandava vez ou outra, um cartão postal dos lugares onde passava em suas viagens intermináveis em busca de algum sentido para sua vida sem sentido. A pequena fortuna que hora possuía deveu-se ao empenho e desespero com que se entregou aos negócios após as decepções de que fora vítima. Finalmente decidira largar tudo e começar vida nova num lugar tranqüilo próximo a fronteira do fim do mundo. Sua tragédia somada a minha, nossas carências e a óbvia necessidade de ele substituir a filha e eu a mãe e o pai que nunca tive, acabaram por levar-nos a um relacionamento muito próximo ao de uma família. Foi desta forma, com os escombros de nossas vidas, que começamos a formar um lar. E, quando tudo ia tão bem, quando já éramos aceitos pela sociedade como pai e filha, que a coisa começou a acontecer. Eu acabara de completar quatorze anos e descobrira ser uma mulher. Ele, ao que parece, já havia descoberto há mais tempo e por esse motivo vinha se esquivando as minhas demonstrações de carinho. Uma ternura e afabilidade novas vinham somar novo encanto àquele que já era para mim, de longe, a mais encantadora das criaturas. Em minha ingenuidade, a princípio, nada percebia de anormal, pela simples razão que nada de anormal havia. Apenas a natureza seguia seu curso e, se continuasse a ser naturalmente natural, resultaria naquilo que resulta entre duas pessoas, de sexo oposto, que se amam e não são consangüíneas. Mas não havia nada de natural em nossa relação, ao menos aos olhos de deus, ou seja, aos olhos do povo. O senso comum não conseguia digerir nossa estranha relação e as demonstrações de amor, que não conseguíamos evitar em público, faziam-nos ouvir cochichos e olhares oblíquos à nossa passagem. Andávamos de mãos dadas pelas ruas. Sentávamos horas na sorveteria brincando com um “Sundae”, olhando o mar e navegando em nossos olhares. Havia à nossa volta uma aura de sensualidade a qual administrávamos e da qual nos alimentávamos. Vivíamos suspensos numa realidade inadmissível, enquanto desfrutávamos o prazer simples de estarmos juntos, de tocarmos as mãos, de ouvirmos nossas vozes, de mantermo-nos presos por essa deliciosa cadeia. Percebíamos, a nossa volta, as fogueiras serem armadas. Ouvíamos, a noite, o batuque dos canibais em seu ritual de bons auspícios, a espera do momento em que nos iriam devorar. Nada disso afetava nosso pequeno paraíso. O levávamos conosco onde quer que fossemos. E nosso Nirvana particular envenenava o inferno pessoal de cada um, entrava em choque com suas biografias insípidas, tornando seu ar irrespirável por rarefeito e demasiado puro que este volvia à nossa presença. Pressentíamos a tempestade, mas uma estranha apatia havia se apoderado de nós. Uma indiferença perniciosa nos fazia olhar a nossa volta com uma clarividência e uma indiferença paradoxal. Bastar-nos-iam umas poucas atitudes para frearmos a ordem em que iam se desenrolando os acontecimentos, e nada fazíamos. Sequer chegamos, em momento algum, a falar sobre isso. Sentíamos ser, nosso pequeno mundo etéreo, de uma fragilidade, de um equilíbrio tão precário, que um pitada de realidade crua poderia empestá-lo, estilhaça-lo. Decidimos então, sem trocar uma palavra sequer a esse respeito, seguir assim, até quando nos fosse possível. A mão do destino já pairava inexorável sobre nossa relação. Pressentimos a borrasca e ela veio um dia com a visita de Dona Matilde, dona da mercearia e testemunha da morte de minha mãe. - Onde ele está? - perguntou ao entrar, antes mesmo de dizer “bom dia”. - Saiu pra comprar um peixe pro almoço. - Minha filha! Minha querida! – disse me olhando com uma espécie de ternura melequenta. Tocou-me o braço e uma eletricidade estranha eriçou-me todos os pelos. Recuei acuada e, a fim de dominar o princípio de pavor que ameaçava me possuir, ofereci-lhe um xícara de café. - Aceito! Mas, sente-se aqui, querida, preciso lhe dizer uma coisa. Eu não conseguia sentar, meus joelhos estavam travados. - Nem sei por onde começar - continuou ela – é tão difícil lhe dizer isso. - se é tão difícil é por que não deve ser dito e nem se faz necessário. Devemos evitar as coisas se estas nos parecessem demasiado difíceis – lhe digo na esperança de encerrar o assunto. - Não minha querida! A vida às vezes nos exige sacrifícios dos quais não nos podemos furtar. - Nós impingimos sacrifícios à vida. Ela, por si só, é leve e simples. Tão simples e tão leve que nos foge a mais tênue brisa, como balão que se compra a uma criança num parque de diversões, amarramos-lhe, então uma pedra, para que não fuja, e o prendemos triste e esquecido a um canto qualquer, até cair murcho por terra... - Olha minha filha, estou aqui para tratar de um assunto sério e urgente e não para encenar uma peça filosófica. Olhei-a apenas, sabendo-a impermeável a tudo que eu dissesse. - não quis te falar nisso antes por que não estava segura ainda. Mas, agora posso te afirmar com certeza... - E, o que te dá esta certeza? - O tempo. E a observação. Você sabe que testemunhei a morte de sua mãe. - É um assunto que procuro esquecer por ser-me demasiado doloroso. Deveria ter mais sensibilidade em não me maltratar falando disso. - Dói tanto em mim quanto em você. - Então evitemos essa dor dupla. - Não! Não posso! Sinto-me culpada, como se fosse comparsa neste crime. - Você não tem culpa alguma. Apenas teve a pouca sorte de assistir a uma cena ruim. Não há necessidade de acusar ninguém para se livrar de uma culpa que não te pertence. Nada irá trazer minha mãe de volta. Quero apenas guardar sua imagem bonita, como a tenho guardado até agora. Não quero macular sua lembrança revolvendo um passado que não poderá trazer nada de bom. - Quer então sepultar sua lembrança!? - Não! Quero mantê-la intacta. - E pensa conseguir isso sendo concubina do seu assassino!? – disse-o de modo exasperado, colocando-se em pé, derrubando a cadeira atrás de si. - Desculpe querida! Não pensava te dizer desta maneira, mas você me obrigou. Enquanto dizia isso foi se aproximando, e, tomando minha mão, acrescentou: - Tente me entender... Tinha os olhos cravados em mim, num apelo viscoso. Olhos de cão. Pressenti um movimento e olhei por cima de seu ombro. Ele estava parado à porta observando-nos. Seu olhar, sempre bondoso, estava perplexo e havia nele uma ponta de ódio. Ela, percebendo sua presença, acrescentou rapidamente: - Já fui à delegacia formalizar a denúncia. A polícia logo virá buscá-lo. Portanto, se não o quer ver preso, faça com que fuja. Não me olhe desta maneira, querida, embora não acredite tudo que faço é pro teu próprio bem. Sejam rápidos, não há tempo a perder. Afastou-se e parou de frente a ele que obstruía a porta. - Com licença! – disse olhando-o desafiadora. Ele se afasta sem dizer uma palavra, sem despregar os olhos dela. Quando ela sai não consigo me controlar, corro até ele, me atiro em seus braços e dou vazão a um pranto incontrolável. Os soluços me sacodem toda enquanto ele afaga minhas costas, meus cabelos, meus ombros. Finalmente afasta meu rosto, que trazia afundado em seu peito, limpa-me os olhos com o polegar, beija-me os olhos e os lábios, profundamente, enlaçando-me com força. Foi a única vez que senti sua masculinidade; a única vez em que me beijou na boca. - Preciso ir! – diz se afastando bruscamente, caminhando em direção a seu quarto. Sigo-o e quando entro percebo, sobre a cama, suas malas já arrumadas. “Então ele já sabia” – penso comigo. Abre uma gaveta, apanha uma carteira, retira dela um maço de dinheiro, deposita-o sobre o criado mudo. Toma meu rosto em sua mão, beija-me com ternura e leveza dizendo: - Minha vida acabou há tempos. Isso que vivi com você foi um empréstimo dado por Deus. Um pedaço do paraíso no qual me quis fazer acreditar. Agora meu prazo está acabado definitivamente. Mas você, minha princesa, tem toda a vida pela frente e não deve se furtar aos desígnios do destino. Adeus. Te amo. Saiu pela porta, metido em seu paletó escuro, tão diferente daquele branco do dia em que chegara. Fiquei observando-o pela janela, imóvel, até que subisse ao ônibus na estação, até que este desaparecesse na estrada. Permaneci, ainda, um tempo infinito sem me mover, e ali permaneceria até a morte, não fossem as circunstâncias que se seguiram me virem tirar de meu ostracismo. Mas, toda minha vida, comum e normal, depois destes acontecimentos, não vale uma palavra escrita. Embora viva ainda hoje, e goze de boa saúde, morri naquele dia

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