condenado

Encontrava-me sentado, placidamente, à borda do alpendre em frente a uma casa simples, muito comum na região onde vivo. O piso de cimento alisado e encerado, refletia de modo baço, minha figura de condenado. Balançava as pernas, batendo com os calcanhares à parede da área, onde esta terminava em abrupto degrau com mais de um metro de altura. “Meu pai deve estar próximo, ou, quem sabe, meu anjo da guarda”- pensei comigo, pois sentia uma paz e serenidade incondisentes com o momento. Esta sensação penetrava-me pelas costas e ombros, exatamente do mesmo modo como sentia penetrar-me, comumente, as impressões ruins dos ambientes pesados, como os de certos lugares onde trabalhei. Não sentia culpa ou remorso e tampouco sabia a razão – ou sabia e não lembrava – por que havia sido condenado. Pensava nisso quando senti – creio haver percebido seu reflexo no cimento – o algoz aproximar-se. - Está na hora! - disse ele. E, a estas palavras senti deixarem-me, irreversivelmente, paz e serenidade. Senti apoderar-se de mim a angústia do condenado. Pensei fugir, mas, se me deixaram assim tão solto, era por ser-me impossível qualquer forma de fuga. “Como será a execução? Serei decapitado?” – pensava comigo – “Não!” –de algum modo sabia que não haveria sangue. “Será a forca?” Instintivamente prendi a respiração até o limite, e essa pequena morte encheu-me ainda mais de pavor à morte definitiva. Antes, porém, que o pavor final me possuísse: despertei. Mas, o que mais me intrigou foi a pouca sensação de alívio causado por meu despertar. Antigamente, quando sonhava esse tio de sonho e fugia à execução por acordar, sentia assaltar-me esfuziante sensação de alívio por seguir vivendo e por haver, de certa forma, ludibriado o destino. Penso que morte e eu já não sejamos assim tão antagônicos. Aos poucos vamos chegando a uma espécie de acordo. Acho que ela está aprendendo meus truques e espera apenas, serena, o momento em que não mais a escaparei.

Comentários

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  2. Zèvirski, vc não acredita, mas tava pesquisando sobre microfone Leson para meu gravador e em uma busca entrei no site da Le Son e depois no blog. Caiu em uma pgna que tinha vários textos, e então comecei a ler o primeiro texto pra ver se achava algo do o tal microfone, e de cara, já vi que não, e quando dei po mim, estava preso no reflexo baço do cimento alisado e encerado e batendo os calcanhares na parede da área. Espero não ser a "Dita Cuja" à minha espreita. Ainda é cedo para um acordo com ela, espero... Porém, se for a hora do epílogo, aceitaremos o destino traçado na doce prosa de um compadre escrevedor.

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