As vezes, no silêncio da noite


Ao ouvir os passos se aproximando, encostou-se à mureta, tentando aparentar indiferença a espera de que passasse. Mas, o vulto sem rosto, encoberto pela névoa, simplesmente parou à uns dez metros de distância. Estacou, súbito, como se houvesse se apercebido de algo. “Ele me viu” pensou, mas logo percebeu não ser devido à sua presença que o vulto estacara. Parecia antes haver lembrado de algo que esquecera. A princípio pareceu que iria voltar atras, com passos rápidos, pelo mesmo caminho por onde viera, embora ele não soubesse dizer de onde surgira. Na verdade, só agora se dava conta disso, ouvira os passos mas não lembrava tê-lo visto caminhando, quando o viu já estava parado, imóvel, com as pernas levemente afastadas, o corpo um pouco inclinado para à frente, o que lhe dava um aspecto de algo desalinhado à ordem natural das coisas, como uma torre de Pizza.
Quando a sensação de ameaça passou e seu coração voltou ao ritmo normal, atreveu-se acender um cigarro. O clarão do isqueiro pareceu varrer, momentaneamente, a névoa e a escuridão, e ele, por uma fração de segundos, pensou poder distinguir os olhos e o olhar do estranho. Mas, tão logo a escuridão voltou, tão densa que parecia poder ser cortada com uma faca, se deu conta de que não poderia, com a luz insignificante do isqueiro, ver-lhe os olhos à distância em que se encontrava, e principiou a temer estivesse num daqueles estados de fronteira com a irrealidade, quando já não tinha certeza das coisas.
Começou, então, alguns dos exercícios que desenvolvera para medir seu grau de contato com o “real”. Primeiro disse para si mesmo, seu nome completo, nome da mãe, endereço, recitou a tabuada...mas, não sentia qualquer segurança quanto a este “método de sanidade” como ele próprio chamava. Se apegava a ele como o náufrago se agarraria a qualquer objeto que flutuasse à sua volta, e, embora nesses momentos sentisse, as vezes, alguma segurança, continuava, no entanto, a sentir-se náufrago. Lembrou de como se agarrara, em sua luta contra um desespero insidioso que ameaçava, sempre, levá-lo ao vício, ou suicídio, de como se agarrara a uma normalidade, a um emprego estável, a uma paixão, ao casamento, aos filhos, ao trabalho, à uma igreja, à pratica de um esporte, sem que nada disso pudesse afastar definitivamente a sensação de desamparo que o perseguira por toda a vida, de modo que, agora, habituara-se a ela e a carregava para lá e para cá, esta sensação, como levaria uma amiga, pelo braço, a passear no parque.
Todas essa conjecturas e monólogos mentais, no entanto, aconteciam à margem de sua consciência, enquanto seu cérebro propriamente dito, tinha a atenção toda voltada à figura parada cerca de dez metros de distância. Se assim divagava era devido a absoluta imobilidade do outro, caso este fizesse o mínimo gesto com um dedo, ou se uma leve brisa movimentasse a ponta do seu capote, teria imediatamente concentrada nele toda sua atenção, e os músculos se retesariam, e ele seria um felino pronto para agir, em defesa da sua integridade física. Mas, se perguntou, por que lutaria pela sua vida, se estivera ali horas, se vinha ali dias seguidos, com um único objetivo, dar fim a essa existência que lhe pesava o ombro como uma fardo demasiado difícil, senão impossível de carregar.
Vinha fazer aquilo que já batizara de “ensaio”. Um dia, estava cada vez mais seguro disso, faria sua estreia, subiria na amurada, num ímpeto, quase que num impulso impensado, muito embora por tanto tempo premeditado, e saltaria no vazio. Experimentava, no pensamento, a sensação. Quase em êxtase, saboreava o segundo eterno que precede a eternidade. O peso jogado fora neste breve momento livre da lei da gravidade, depois, apenas a negra escuridão a cobri-lo como um manto protetor.




    • Vim para ver o espetáculo! - ouviu e ficou em dúvida se realmente ouvira ou se
      fora apenas seu pensamento, mas, com um gesto instintivo, os músculos retesados, olhou para o estranho, permanecendo assim por longo tempo, apenas olhando-o, preso a esta dúvida, até que o vulto resolveu repetir o que dissera.
    • Vim para ver o espetáculo.
    • Do que está falando – perguntou, sem se aperceber do que fazia.
      Arrependeu-se imediatamente haver-lhe dirigido a palavra, voltando a se retesar.
    • Quando irá representá-lo, não quero perder de modo algum.
      Quando pensou retrucar, o entendimento caiu-lhe como um cofre que despencasse do segundo andar sobre sua cabeça e sentiu-se enterrar na calçada.
    • Não quero perder. Será uma apresentação única, imperdível portanto. Antes ia ao teatro – continuou o estranho – mas se tornaram tediosos e até ridículos esses espetáculos de uma falsidade desesperadora. De modo que agora procuro os desesperados autênticos. Só esses são capazes de nos proporcionar um espetáculo de verdadeira tragédia humana. Único e autentico espetáculo.
    • Por hoje o show está cancelado – disse apenas balbuciando após longa pausa onde digeriu o entendimento daquilo que o outro lhe falava.
    • Não tem importância. Alias, tem sim. Quanto mais demorar tanto melhor. Cada dia que o venho observar assisto a um pequeno show. Os preâmbulos, sabe, são muito importantes. Não gosto daqueles impulsivos que aqui chegam e simplesmente se precipitam num gesto impensado. Não tem arte esses. São uns grosseiros que executam seu numero sem ensaio, sem respeito pelo que fazem e pela plateia, embora esta seja apenas eu, sem respeito por si mesmos. Se alguém se propõem fazer algo assim o mínimo que pode fazer é fazer bem feito – completou com um risinho nervoso mas sem nada de cínico.


continua

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