ANA E O ARMAGEDON

Encontrávamo-nos num lugar de um bucolismo dolorido que seria muito bonito não fosse a luz demasiado sólida, de cores intensas e belas, mas, ao mesmo tempo, com certo que de fatidicamente fúnebre.
Era complacente a atitude de Ana, quando veio a mim, e, embora viesse reclamar do comportamento de um tal Menguela, fazia-o de modo condescendente, acrescentando ainda a mesma reclamação sobre outro sujeito: Beck Antunes, este bastante meu conhecido a cujos modos irascíveis eu já estava habituado.
Saímos ambos no intuito de resolver estas questões quando avistei no céu estranho fenômeno.
- Veja! É uma espécie de mini furacão – e o contato com seu ombro desnudo ao voltá-la em direção a ocorrência comunicou-me conforto e calor.
Olhamos juntos àquilo que parecia ser um ciclone de areia - pelo menos foi a única definição que consegui dar a ele -, até que este se desmanchou, precipitando-se ao chão, se extinguindo antes de tocar o solo.
Quando nos voltamos para seguir adiante vi outro.
- Veja! Mais um – disse eu, mas, logo havia outro e mais outro e, de repente era como se o próprio céu se desmanchasse num desmantelar da matéria.
Estávamos à beira mar e este por sua vez parecia prestes a invadir a terra.
- Será o Armageddon? - Disse ela.
- Não sei, mas é melhor sairmos da praia - disse, sem perceber a inutilidade do que pretendia fazer.
Tomei-lhe a mão e ela sorriu ao contato. Sorri por minha vez saboreando a agradável sensação de paz que este sorriso comunicava. Falávamos algo no intuito de aliviar o medo que ameaçava tomar-nos, enquanto caminhávamos em direção a uma espécie de aprazível cidade costeira cujas ruas pareciam agora dissolver-se também, como todo o mais. Queria ir à casa de minha mãe, mas parecia não haver tempo pois era agora evidente que o mundo se acabava. Desejei fosse apenas um sonho, que pudesse simplesmente despertar, mas era real e, quando o medo já se apoderava de mim, ela e o mundo todo se desmancharam numa poeira cósmica que acabou por dissolver-se também.
Despertei neste primeiro de janeiro em meio à enorme sensação de vazio o qual tratei de ir preenchendo com o agradável calor das cobertas e as expectativas de um dia que se prognosticava feliz diante dos meses de dúvidas e incertezas que viriam após ele.
Agora que já atingimos metade do ano de 2012 penso termos grande chance de chegar ao final dele.
Ah! Espero tenha dado um belo presente à sua namorada neste dia doze de junho, mesmo que este presente tenha sido um beijo terno ou um simples olhar de amor e cumplicidade, pois, se o mundo acabar, poderá ter valido sua existência apenas por estes pequenos gestos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

condenado

Cuentos de España