sobre Bateias




O GATO POR DENTRO E O CACHORRO POR FORA
Certo dia, quando se dirigia à Três Córregos, ao passar por Bateias Fran sentiu uma sede que, somada à curiosidade, fizeram-no parar no armazém de madeira pintada de vermelho, bem no centro dessa curiosa vila.
Macondo - disse ele olhando à sua volta.
Por algum motivo esta vila o fazia pensar naquela outra de Cem anos de Solidão.
Entrou no boteco, pediu um refrigerante e se dirigiu à área toda pintada de verde, em frente do estabelecimento, onde sentou no banco de madeira.
Acendeu um cigarro e recostou à parede enquanto olhava a igreja, o colégio, o cemitério e o morro atrás deles.
Um menino chegou a cavalo. Amarrou o animal à uma das vigas de sustentação do telhado enquanto olhava para a moto de Fran com certo ar de cobiça.
Tarde! - cumprimentou ao entrar, seus sapatos de sola rústica fazendo ressoar o assoalho de madeira.
Após fumar e beber Fran entrou para pagar a conta. Enquanto esperava pelo troco, que demorava muito para vir, pode observar a profusão caótica de objetos expostos à venda; a balança, o balcão de madeira , os balaios junto aos martelos, pás, picaretas; os litros de cachaça dentro dos quais jaziam as mais variadas ervas e cipós de aspecto sinistro, um caboclo sentado à um canto, adormecido com o chapéu sobre o rosto.
Antes de subir à moto Fran olhou para uma casa erigida logo atrás do armazém. Chamou sua atenção o estilo típico da década de 50, e o muro, idêntico ao de uma foto que havia visto na capa de um livro de contos de Fitzgerald. Se tivesse observado mais de perto Fran teria visto ainda uma pintura, na pequena área de entrada, no mais legítimo estilo Naife.
Subiu à moto , deu partida e arrancou; meio sonolento,talvez relaxado demais, com os olhos ainda presos ao morro, às casas, ao armazém, às nuvens, quando sentiu um latido bem à seu lado. Era um cachorro preto, muito grande e quando, de susto, Fran acelerou para se livrar do bicho este cruzou em frente à moto. A roda dianteira bateu-lhe no flanco e o pneu passou sobre sua pata traseira. O cão soltou um ganido horrível e se refugiou sobre um pequeno barranco.
- Cachorro idiota! - exclamou Fran, para quem todos os cachorros eram idiotas.
Um assovio cortou o ar e o cão levantou as orelhas, primeiramente, depois a cabeça e, esquecido de sua dor correu em direção àquele que o chamava: um homem de aspecto sinistro com enorme chapéu socado à cabeça. Seus olhos pareciam dois pontos brilhantes e vermelhos debaixo da sombra do chapéu.
- Animal idiota! - disse Fran acelerando em busca de deixar para trás esse lugar que, por alguma razão, lhe parecia hostil.


GATOS, PORCOS, CACHORROS E LINGUIÇAS
Agora que falamos de cachorros e de Bateias, tomo a liberdade de acrescentar algo, já que esta casa a que ele se refere é a casa onde nasci.
Lendo Burroughs descubro por que me dói tanto quando bato em meu cachorro: é como se batesse em mim mesmo. Não! É pior! Se bato em mim mesmo sinto apenas dor física, não sinto culpa. Pior ainda quando isto se dá à vista de um de meus filhos. Percebo em seus olhos uma recriminação e uma chispa de ódio. Lembro de como odiava meu pai quando o via maltratar um animal.
Ele fora açougueiro e matava porcos e, como era muito bom em tudo que fazia, criou uma lingüiça famosa: a lingüiça de Bateias. Seus continuadores não conseguiram manter o padrão de qualidade ou de carisma e hoje, infelizmente, ou graças a Deus, a lingüiça de Bateias é apenas uma recordação na mente de algum gourmet saudosista.
Eu não o perdoava por isso, por ter matado porcos e pensava que pudesse matar também cães, ou gatos . Mas no final sabia que isso não era verdade e que ele era tão sensível quanto eu e que sentia, igual à mim: dor e piedade quando maltratava um bicho e, o que é pior: culpa.
Apenas com os porcos não sentia culpa. Eles, segundo seu conceito, eram criados para serem mortos e a única maldade que praticava, se é que podemos chamar maldade, era matá-los. Mas, enquanto isso, enquanto não os matava, tratava-os bem e os alimentava com o melhor milho que pudesse adquirir. Lembro de uma cena: meu pai com uma lata de 18 litros cheia de milho que ele esparramava sobre a parte cimentada do chiqueiro a qual havia sido previamente lavada e desinfetada com Creolina.
E quando despejava o milho dourado (Não sei por que o vejo dourado, pois nesse tempo conhecia apenas o milho branco. Também não sei como posso lembrar dessa cena pois tinha apenas cinco ou seis anos nessa época), mas é assim que o vejo: o milho dourado sendo despejado na tarde dourada, os raios do sol se insinuando pela poeira do milho que quicava no cimento e pulava e rolava como se estivesse brincando e festejando a liberdade de estar ali, ao sol, e de poder fazer parte deste festim antes de ser devorado. Matar ou ser morto, devorar ou ser comido era tudo uma coisa só, tudo era belo e feliz na tarde dourada.
Talvez tenha sido daí que meu pai resolver ter um dente de ouro e agora quando relembro dele em meio à poeira dourada o vejo sorridente e seu dente de ouro reflete o sol da tarde em lampejos que mais parecem um código secreto, como se me mandasse uma mensagem que somente agora, a medida que vou escrevendo, vou decifrando e entendendo embora apenas parcialmente.
Havia um pânico e um pavor generalizados quando meu pai matava os porcos e penso que meus medos injustificados possam vir daí. Mas penso também que não havia qualquer maldade no seu ato de matá-los, era apenas, a seu ver, uma coisa necessária dentro do seu conceito de que o ser humano não podia existir sem matar porcos. Alguém tinha que fazê-lo, então ele o fazia, com a máxima eficiência, com o amor que tinha pelas coisas bem feitas. E o resultado era a melhor linguiça. A linguiça de Bateias.

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