Cuentos de España

Recostei-me no travesseiro e fechei os olhos a fim de imaginar o que faria em Cadiz.
Comecei a percorrer, mentalmente, as estreitas ruazinhas conhecidas, e, a medida que o fazia, sentia invadir-me sensação de desalento e abandono.
A princípio lentamente, depois quase num frenesi, percorro as vielas escuras, cada vez mais sombrias, sentindo-me esmagar entre as paredes altas e estreitas. Busco um caminho o qual sei irá dar ao mar. Penso que a visão deste, com sua amplitude azul, me iria devolver a paz; e, é com indizível opressão que alcanço, após atravessar ampla avenida, o parapeito que separa o passeio da praia. Mas, o mar que busquei quase em desespero, não é capaz de devolver-me a serenidade como pensei pudesse fazê-lo.
Não era azul, como esperava encontrá-lo, ou era mas de um azul quase indistinto, cinza, tornando-se, lá na faixa onde se encontrava com o céu, quase negro.
Abro os olhos e a visão de meu quarto, após alguns momentos, me devolve a serenidade perdida, nesta minha viagem imaginária `a cidade para onde deveria mudar-me no dia seguinte. "O que haverá de errado com Cadiz?" - penso comigo -. Havia planejado amplamente minha mudança. Precisava deixar Jerez de La frontera.
Após o desentendimento com meu sócio, já não havia mais espaço para mim nesta cidade, e a pensão onde agora me encontrava, embora muito agradável, era, eu o sabia, apenas uma pausa antes de minha mudança.
"Que fazer? Será que devo voltar ao Brasil?"
Não o podia. Haviam restado muitos bonecos, os quais eu havia produzido, em uma sociedade esquisita, no atelier de meu primo, e precisava transformá-los em dinheiro para voltar ao meu país. Além do mais, havia prometido a mim mesmo, e creio que também a outras pessoas, não voltar antes do Natal; e isso queria dizer pelo menos
mais dois meses.
"Dois meses sozinho!" A idéia não era nada estimulante. Todas as pessoas a quem conhecia e com as quais tinha alguma relação, muito superficiais por sinal, viviam em Jerez.
Minha esposa havia embarcado a dois dias, e eu acabara de regressar de Madri, onde fora levá-la, numa viagem extremamente penosa, a fim de que tomasse o vôo para o Brasil.
Estiveram na estação, para despedirem-se dela, seus colegas de atelier: Pepe, Mari Vadi, e a belíssima Rose. Esta deitava-me, já a algum tempo, lânguidos olhares e sua beleza pura e primitiva, despertava-me uma ânsia de posse quase incontrolável, ainda mais após tê-la visto na praia, em trajes de banho, com seu corpo farto, amplo e perfeito como uma estátua de Rodin.
No dia seguinte, após a partida de minha esposa, por motivo do qual não me recordo, fui ao atelier: ela, olhou-me com seus enormes olhos de cachorro feroz, e, com um gesto de desespero, o qual despertou apenas pequena curiosidade em seus companheiros, mas que para mim disse tudo da inexorabilidade das coisas, atirou ao chão o boneco no qual trabalhava, dizendo, com ódio desesperado, uma frase que guardei, no momento como sendo a síntese da pequenez deste povo tão reprimido e atacanhado, mas, que logo vim a descobrir ser simplesmente a própria condição humana.
- Vida pera! Que no puedo hacer lo que me gusta!
Agora, na segurança confortável deste quarto que, apesar de aprazível, jamais chegaria a transformar-se em alcova, repito pela primeira vez, a frase que haveria de repetir, infinitas vezes, pela vida afora:




- Vida perra! Que no puedo hacer lo que me gusta!
Acomodo-me ao travesseiro. Pela janela, a qual dava para a "calle Los Morenos", ouço alguns rapazes, quem sabe ciganos, a passarem cantarolando alguma música sevilhana.
"Sevilha!" - penso comigo - e por que não Sevilha?
Instantaneamente vejo-me percorrendo-a e, em pensamento, ela apresenta-se-me: muito clara, luminosa; de uma luz forte porém delicada, suave e agradável.
- E' Sevilha! Não há dúvida. E' para lá que eu vou!
Imediatamente o sentimento de opressão e pessimismo, que se havia apoderado de mim, se desfaz, sendo substituído por benfazeja sensação de bem estar e confiança.
Teço meus planos: "Amanhã, 'tempranito' pego um trem para Sevilha; busco uma pensão agradável, como esta daqui, ajusto o aluguel e volto para apanhar minhas coisas. Depois trato de encontrar um lugar onde possa vender meus bonecos.
Bem o sabia - por ouvir falar - ser difícil encontrar uma rua onde fosse livre o comércio ambulante, mas encontrava-me imbuído de tal otimismo que, pensava comigo, ser este apenas um detalhe que se resolveria por si só.
Dormi excepcionalmente bem. Como não o fazia há muito tempo, visto ser o ambiente extremamente pesado e conflitivo no apartamento onde, até então, havia vivido. Em conseqüência disso tinha os nervos bastante abalados e sempre alertas, o que não me permitia boas noites de sono.
Agora, porém, tendo deliberado a mudança para Sevilha; muito embora esta se fundamentasse apenas num pressentimento vago, ou numa intuição que não poderia ser defendida com qualquer argumento lógico, sentia-me confiante e relaxado, e isto proporcionou-me uma noite de sono, tão profundo quanto reparador.
Pela manhã, saio à rua, e o sol brilhante desta latitude grita-me - Bom dia! - à minha cara desguarnecida de óculos escuros. Dirijo-me ao café onde costumo tomar expresso com torradas e manteiga. A seguir compro, na banca, a um espanhol sonolento e mal humorado, uma revista de motos, cuja capa era a foto do Raly Paris-Dakar, e, a pé, - estava muito disposto a caminhar - dirijo-me à estação ferroviária.
A viajem de trem, ao contrário das anteriores, foi bastante agradável, muito embora a paisagem desolada, que sempre me oprimia o espírito continuasse a mesma. Desta vez foi como se deslizasse por uma terra de sonhos, - ou pesadelos - e pouco me importasse ser ela: assim ou assado.
Chegando à Sevilha, tomo o ônibus, o qual, segundo me informou um transeunte, - com rudeza por sinal, visto ser este um povo sem muita paciência para com os que não dominam bem seu idioma e seus dialetos - deveria passar pela "Calle Feria", um ponto de referência para mim, um dos poucos que conhecia.
Deveria eu, - segundo meus planos - descer ali e depois seguir em direção a "La Giralda", a belíssima e grandiosa catedral, em cujos arredores contava encontrar uma pensão aprazível.
Levanto do meu assento e puxo a campainha, dando sinal de que iria descer no ponto seguinte, e me ponho diante da porta de saída esperando-a abrir-se. Quando, porém, vejo-a aberta, diante de mim, por um pressentimento inexplicável, sinto não ser este o lugar onde deveria desembarcar. Permaneço parado, frente à porta, indiferente ao olhar pouco amistoso do condutor. Tomo ares de quem não entendia o que se passava e despisto, tentando dar a impressão de que não fora eu quem puxara a campainha. O motorista, por fim, em dúvida sobre minha culpa, resolve colocar o veículo em marcha.





Não volto a sentar, e esta posição obriga-me a inclinar-me a fim de ver o que se passava na rua, agora totalmente desconhecida para mim.
Rodamos por algum tempo e, já principiava a me preocupar com o acerto de minha atitude, quando, percebo pela janela, uma enorme praça, na qual pude ver alguns vendedores ambulantes. Puxo novamente a campainha e, desta vez, quando o veículo para e a porta se abre, sob o olhar desconfiado do motorista, desembarco de um salto.
Permaneço parado `a calçada, e somente quando o ônibus já se havia ido a bastante tempo, sinto-me animado a seguir em direção `a praça.
Esta, segundo vim a saber mais tarde, chamava-se "Plaza de Hercules" ou "Alameda de Hércules". Ostentava enorme estatua deste semideus mitológico, em uma de suas extremidades, colocado sobre altíssima coluna. Parecia-se, esta praça, com as modernas ruas transformadas em passeio para pedestres.
Era próximo de meio-dia, e a feira que ali acontecia já se estava encerrando. Por todo lado viam-se feirantes desmontando suas barracas e guardando seus pertences. Reinava uma espécie de desordem caótica; um amontoado de bugigangas, e no rosto das pessoas podia-se ver estampados: o cansaço e a insipidez de um dia aparentemente sem muitos encantos. Vou percorrendo a alameda observando a tudo com indiferente interesse, analisando, sem muita empolgação, se seria este, talvez, o local onde colocaria meus bonecos à venda. Ninguém parecia empolgado. "Parece que as vendas não devem ser muito boas poraqui"- penso comigo.
Paro em alguns pontos, observo as mercadorias; mas ninguém paresse interessar-se por mim. Faço algumas perguntas, as quais são respondidas em rápidos monossílabos. Então, logo adiante, ouço uma música que, de certa forma, destoava do ambiente.
Era alguma coisa que conhecia mas não conseguia distinguir de onde ou a que banda pertencia. Atraído por essa música, dirijo-me até onde encontrava-se um jovem, ocupado em guardar seus pertences, enquanto ouvia a suavidade contundente e paradoxal de uma guitarra angustiada ser consolada pela batida mansa de um piano, e a nota suspensa e horizontal de uma flauta mágica, antiga.
Fitas cassete. Eram a mercadoria vendida pelo jovem artista.
Quedei algum tempo olhando as capas das fitas, fazendo, vez ou outra, alguma pergunta, a que ele respondia com enorme solicitude. Então, inesperadamente, pergunta de onde sou.
- Do Brasil. - respondo eu , no mesmo tom que já estava abituado a usar.
- Do Brasil?! E eu sou das ilhas Canárias. - diz-me, estendendo a mão, num
entusiasmo, o qual, no momento, não pude perceber a razão.
Ele, notando minha ignorância, explica, num tom que pareceria pedante não fosse a enorme solicitude e simpatia a transbordarem da bela figura.
- É que: quando Colombo partiu para a descoberta das Américas, descobriu, pelo
caminho, as Ilhas Canárias. Nós, portanto, os Canários, - enfatizou ele - somos mais americanos que espanhóis e, principalmente, nos consideramos irmãos dos brasileiros.
Meu primo, que vivia a bom tempo na Espanha, já me havia falado da enorme
simpatia que nos voltavam estes islenhos. Eu, infelizmente, conheci apenas este único exemplar deste povo, do qual, baseado nos padrões do Fran, faço a melhor das imagens.
O Fran, - foi como se me apresentou - explanou longamente sobre sua ilha, seu povo, seu pai, seu trabalho ( era pintor e escultor, assim como seu pai), seus estudos na Escola de Belas Artes de Sevilha.
Eu , também, envolvido imediatamente pelo encanto do rapaz, falo desabridamente de todas minhas aventuras e desventuras, explicando, por fim, a razão da minha estada na cidade.




- Faz muito bem de vir para cá. Sevilha é maravilhosa, poética; envolta em mistério, respira arte. "Es la ciudad del embrujo y del encantamiento".
A seguir pediu-me que o ajudasse a levar suas bagagens ao apartamento onde morava, juntamente com outros estudantes, todos da mesma escola; poderíamos então almoçar juntos e conversar mais longamente sobre nossas pátrias, trabalhos e artes. Logo chegamos ao apartamento que, por incrível coincidência, encontrava-se na "Calle Feria", a qual - lembra? - era meu destino inicial nesta cidade.
Logo fui apresentado aos demais moradores: Xavier, com quem simpatizei de imediato. Era de Tarifa, a terra dos ventos constantes, no estrito de Gibraltar. Tinha os cabelos muito escuros e ondeados, trazendo-os muito bem penteados, o que lhe conferia ares de campesino; e, Augusto. Este, somente agora, ao escrever estas memórias, percebo não saber de onde era. Ao contrário do Xavier voltou-me imediata antipatia e depois - somente mais tarde vim saber - moveu ampla oposição à minha vinda, na condição de morador, ao apartamento; mas isso já é outra história. A verdade é que conversamos muito, - apesar da minha dificuldade com o idioma - rimos um bocado e saboreamos um "Garbanso" surpreendentemente delicioso. Creio que o clima de camaradagem emprestou seu sabor ao cosido.
Parti a tarde, de volta a Jerez, com o espírito saturado de boas perspectivas, comprazendo-me com as novidades, digerindo, qual vaca satisfeita, tudo de que havia forrado meus quatro estômagos, daquilo que me encontrava faminto: amizade.
Como não tivera tempo de buscar a pensão, conforme meu plano, ficou acertado que no dia seguinte fecharia a conta na hospedaria, traria minhas coisas ao apartamento, e, então, iria a cata do meu novo endereço.
No outro dia, como não tivesse pressa alguma, acordo muito tarde. Vou ao café fazer o desjejum e, ao voltar, me ponho a embalar a precária mudança. Em momento algum me dei conta das horas e, quando vou ao hospedeiro a fim de fazer-lhe o pagamento, como já passasse do meio-dia, este quis cobrar-me mais uma diária. Aleguei que: se não saíra antes, foi por não ter me dado conta deste detalhe, para mim, insignificante. O homem com uma rudeza exagerada até mesmo para um espanhol, faz afirmações insinuando, ou deixando claro, que eu agia de má fé, e, com toda experiência, que deveria possuir, sendo estrangeiro e vendedor de bonecos, deveria estar farto de saber desta regra seguida em todas as pensões. Pensei explicar-lhe ser esta a primeira vez que me hospedava em uma pensão e que não possuía a menor prática nesses assuntos, mas, como muitas vezes me ocorre quando sou surpreendido com uma agressividade despropositada, fico sem palavras, acabando por sacar do bolso o restante que me solicitava o espanhol. Este, para minha surpresa, põe-se então a falar de um cem número de outras coisas, numa tentativa tão inútil quanto inábil de despertar-me simpatia.
Tomo o trem, com alguma dificuldade, pois minha tralha constava não somente de roupas, bonecos, travesseiros e cobertas, como também de um colchão; e, quando me apresento à porta de meus novos amigos, com este colchão debaixo do braço, a primeira coisa que Fran me diz é: - Mas, se você tem um colchão pode ficar aqui hoje mesmo.
Ao que paresse havia acertado com seus amigos, após pequena discussão, que eu poderia ficar vivendo com eles, restando apenas resolver o problema de onde iria dormir.
Notei havê-lo surpreendido em meio a uma faxina. Com certeza imaginava que eu viria mais tarde e empenhava-se a fim de causar boa impressão. Disse-me, enquanto lutávamos com uma gordura empedernida no fogão, que hoje viria visitá-lo sua amiga Ani, e que ela estava ansiosa por conhecer "o brasileiro".





Ani era, assim como todos eles, aluna da mesma escola de artes. Mostrou-me um de seus desenhos - uma natureza morta que retratava um pouco da desordem poética reinante no apartamento -, lindíssimo e que revelava grande talento.
Fiquei bastante apreensivo quando se aproximou a hora em que ela deveria chegar. Apreensão que não perdurou muito, visto ela haver chegado antes da hora aprazada. Creio estivesse também muito ansiosa por conhecer-me. Quando chegou, porém, notei em seu olhar uma chispa de decepção, a qual, mais tarde vim saber, deveu-se ao fato de que esperava serem todos os brasileiros: negros.
Eu também, por minha vez, tive minha parcela de decepção, já que nossa pobre amiga carecia de todo e qulquer encanto físico. Porém, como logo vim a descobrir, o que lhe faltava em beleza, sobrava-lhe em virtudes. Também ela era de outra cidade, do interior de Espanha, de cujo nome não me posso recordar. A verdade é que entre nós houve imediata e reciproca afinidade, o que nos permitiu desfrutássemos momentos deliciosos; eu, ela e Fran; como se fossemos três bons amigos homens, ou, talvez melhor, sem sexo.
O engraçado é que quase não consigo lembrar sobre que conversávamos, nas longas horas em que nos deixamos ficar, ouvindo música, lendo e tecendo comentários os mais variados. Creio, desfrutávamos apenas de nossa companhia mútua e era apenas isso que queríamos.
Falei ao Fran, num desses assuntos ocasionais, sobre minha opinião com respeito a maneira rude dos espanhóis. Ele ouviu-me com surpresa, como se nunca houvesse se dado conta disso; e a partir de então empenhou-se na tarefa vã de transformar a natureza deste povo. Um dia, - lembro com detalhes da cena - vi-o dando uma palestra ao dono de uma pequena cafeteria: "Por que falar dessa maneira?", "Que necessidade tem de ser tão rude?" "Não pode simplesmente dizer que não há leite frio, sem toda essa agressividade?". E, em muitas outras ocasiões, vi este Don Quichote investindo contra outros moinhos de vento.
Tinha a fala suave, como os sul americanos, não possuindo o tom gutural dos espanhóis. De uma natureza muito simples e descomplicada, alma límpida e bondosa, de maneiras suaves, ternas, sempre amistosas; possuía, além de todas as virtudes morais, extraordinária beleza física. Cabelos e olhos claros, pele amorenada, ombros largos, membros fortes, nariz pequeno, queixo quadrado com uma pequena covinha, formava um conjunto capaz de agradar a todos, unanimemente, homens ou mulheres.
Estou seguro jamais haver encontrado pessoa sequer semelhante. Era uma espécie de santo. Um semideus, ou algo assim. A verdade é que não parecia pertencer ao gênero humano, assim como alguns quase demônios que conheci em outras ocasiões da vida.
Agora que perdi o contato com ele, parece-me, por vezes, nem tenha existido de verdade, e, não fossem as poucas correspondências, as quais trago ainda guardadas, e que penso serem uma prova concreta de sua existência, teria dúvidas em relação a minha memória.
A verdade é que esta convivência me impregnou de uma aura, ou eflúvios, ou energias puras, ou seja lá como os místicos poderiam chamar a isso, que, não somente me transformou como me transportou a outro estado de consciência, e, quando de volta ao Brasil, sentia-me tão mudado que não podia acreditar fosse eu o mesmo de antes.
Andava por minha cidade com um sentimento novo. As casas me pareciam mais pequenas, mais belas, assim como as pessoas, suas idéias, seus conceitos e tudo que lhes era importante, tais como: status, dinheiro, conforto, segurança...tinham para mim, agora, a importância de um sussurro distante.





Nunca havia sentido tanta confiança. Nunca antes tivera tão pouca pressa. Nunca as coisas me pareceram tão belas. Nunca fui tão sedutor, tão cativante, como nesse tempo. Vivia um estado de beatitude onde a poesia era o cotidiano. Lembro de uma tarde quando, após o almoço, descansava em meu quarto. Fazia agradável calor, - assim como seriam agradáveis: o frio ou a meia-estação - pela janela penetrava suave brisa a qual enfunava a cortina branca e leve, como a vela de um barco que era minha cama. Lembro de a cena haver-me despertado tal prazer que levou-me a pensar se não me encontrava sob efeito de uma droga sutil, fabricada dentro de meu próprio cérebro.
Três meses, durou este estado de transporte espiritual, quando, do dia para a noite, desapareceu. A partir de então minha vida tem sido uma busca , uma tentativa constante em recuperar esta graça perdida. Quando recentemente estive por mais ou menos cem dias trabalhando no interior do município coletando dados estatísticos, pensei haver reencontrado meu pequeno Nirvana particular. Mas, este sequer chegou a ser um arremedo daqueloutro.
Mas o assunto é o Fran e não minha mal sucedida beatitude.
A verdade é que existem pessoas - e o Fran é uma prova disso - feitas de outra matéria, muito mais fina, mais sutil que o demais da raça humana, e, se tivermos a sorte de conviver com uma dessas pessoas, ver-nos-emos não somente transformados como também transportados a outro plano de existência. Não a uma irrealidade, mas a uma supra-realidade. Penso o quanto melhor poderia ser este mundo se: cada cidade tivesse seu Fran; ou, como seria então, se cada família o tivesse?
Logo porém ele como todos seus amigos, que eram agora também meus amigos, entraram em férias escolar, e, como era natural, tiveram de voltar às suas cidades, mas, não sem antes fazermos uma bela festa de despedida para cada um. Quando chegou a vez do fran, saímos: eu, ele, nossa amiga desenhista e uma americana maluca que vivia em outra república, e creio eu, também em outro mundo. O fato é que tal companhia fez-me muito mal e voltei embora cedo acometido de uma indisposição a qual, no momento, pensei dever-se a tortilha que havia comido antes de sair. O fato é que meus colegas consideraram a despedida não válida e planejamos repeti-la no dia seguinte. Desta vez, - sem que houvéssemos combinado nada - deixamos a americana de fora.
Foi uma noite inesquecível. Nunca fui noctívago, nem tampouco dado aos prazeres etílicos, mas esta noite passamos ouvindo música cigana e, confesso, tomei uns belos goles. Quando fechou "La Carboneria", o bar que costumávamos freqüentar, onde havia sempre boa música flamenca, saímos em busca de outro recinto onde pudéssemos dar continuidade à nossa confraternização.
A saída de "La Carboneria", juntaram-se a nós dois ciganos munidos de suas guitarras. Buscamos, então, longo tempo, até encontrarmos outro bar disposto a nos receber e, quando o fizemos, ali quedamos cantando e conversando até a aurora, quando fomos enxotados pelo sonolento proprietário. Tínhamos, noentanto, pouco ânimo para volvermos a nossas casas e, após rápidas deliberações, dirigimo-nos ao bairro de Triana, do outro lado do rio Gualdalquivir. Instalamo-nos num bar cujo nome não recordo, mas que abria a estas horas para servir café aos vespertinos.
Confortavelmente acomodados, rodeados de pessoas, as quais seguiam direção inversa a nossa - iam ao trabalho enquanto nós sonhávamos com travesseiros - , deixamo-nos envolver pela languidez, desfrutando o doce burburinho à nossa volta. Logo, o conforto do ambiente, o calor agradável àquela hora matutina, o cheiro do café e seu sabor ainda em nossas bocas, faziam-nos ronronar qual gatos gordos e nos vimos tomados de uma





sonolência irresistível que, aos poucos tomou conta do pequeno bando, até então muito animado.
Demo-nos ao luxo de chamar um taxi e desembarcamos próximos `a "Calle
Feria" daonde cada qual tomou seu destino. Lembro ainda - se fechar os olhos posso ver a cena - de um dos ciganos afastando-se: violão às costas, em seu passo vacilante de boêmio, desaparecendo no final da rua, iluminado pela luz obliqua da manhã sevilhana. Despedimo-nos dele como se fossemos encontrá-lo dali alguns momentos novamente, noentanto nunca mais voltei a vê-lo.
A partida de Fran jogou-me de encontro a uma solidão como jamais havia experimentado e como não voltei a encontrar até o dia de hoje, muito embora, nos últimos tempos, tenha convivido amiúde com este sentimento pernicioso.
Na noite de Natal fui a "La Giralda", assistir à missa do galo; depois fui assaltado por uma dupla de "drogaditos" em uma "callejuela". A noite de ano-novo passei-a na rua observando um bando de bêbados comemorarem com desespero o fim de um ano desesperado. Voltei ao apartamento e me entreguei ao desamparo. No dia seguinte tentei, ainda, ir ao trabalho. O frio havia recrudescido e um vento gelado se insinuava, mortal, pelas ruas estreitas e sombrias, levando meus bonecos e minha paciência.
No dia seis de janeiro, lembrei ser este o dia do Natal espanhol: o dia de "Reyes".
Num impulso, arrumo a bagagem, e tomo o trem para Madri. Da estação chamo o aeroporto. Uma atendente de minha companhia, da qual já possuía o bilhete, diz-me ser impossível embarcar àquele dia. Lembro-a da data e lhe digo que com certeza alguém deveria ter marcado passagem para esse dia, esquecido de que era "Reyes". Ela responde-me que: "Se quizer esperar no aeroporto, por uma vaga, pode faze-lo” mas, não se responsabilizava ou assumia qualquer compromisso".
Sem nenhum contratempo, - exceto com o carregador de malas, o qual tentou extorquir-me - cheguei ao aeroporto, e, como esperava, embarquei numa aeronave com quase metade dos lugares vazios.
Voei deitado em duas poltronas, ouvindo um negro norte-americano tocar, ao saxofone, blues e sambas, agradáveis e sofisticados. Pedi um guaraná. Tomei-o com sôfrega nostalgia, e adormeci, despertando somente quando já sobrevoávamos a caótica desordem da metrópole paulista.

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